Por Ricardo Menacker

Hoje sonhei que estava a caminho duma instituição que cuidava de crianças com câncer. Duas pessoas me levavam pela longa estrada, tal fortaleza estava assentada num bairro distante, pobre e periférico da cidade. Ao que parece, mais de duas horas haviam andado. Nunca usei relógios de pulso para mensurar as batidas do tempo. E nestas horas nada se dizia. O veículo era confortável porque era carro charrete não sei, não tomou minha atenção, o porvir me consumia em detalhes. Não lembro de casas na região. Não lembro da paisagem, contudo uma sensação desértica me toma a mão ao tentar despertar a memória. Não lembro de solavancos do veículo, buracos ou pedras não existiam na esfera. Lembro das grossas grades, portões. E da escadaria lembro com afeto. Muitos degraus para subir até a porta principal. Eram circulares os degraus. Em meia-lua, um subia a um até a entrada, sabia, e desde o início sabia, que subia apenas para admirar a curiosidade piramidal, do alto pico da paisagem que não vi vasculhando arquivos, era outro ponto de vista para a sede beber. Saber.

Por um corredor estreito, subterrâneo, entrei. Era um castelo medieval a tal instituição. Uma porta no alto, e outra pequena, vicinal para serviçais, que ligava meu coração à ansiedade, duas aldeias pouco distantes. Em fila, vi os menores. Eram crianças. Havia um torneio. Em fila, crianças. Não senti tristeza, frio, calor, alegria. Estava só. Os dois homens que me levaram até o local ganharam outra dimensão, em que tempo ou espaço, desconheço, sumiram dos olhos. Andava só. Nunca mais os vi. Desde a porta da pequena porta corredor sem porta eram fantasmas. Não senti tristeza, frio, calor, alegria. Estava só. Vi todas as crianças em número superior ao que podia contar. Muitas. Duzentas. Talvez pouco menos. Em fila passaram pelo corredor ao meu lado, corredor extenso. Ao passo que cada um passava, contava. Um, dois, cinco, oito, dez, vinte e três, quarenta e nove, setenta e oito, cento e trinta e seis. Muitos, parei. De passar o último, plantei os calcanhares aos pés dele.

Não eram silenciosas! Eram crianças, céus! Animadas brincavam no pátio encontrado ao final do corredor comprido. Era noite. Tinha neblina para mistério. E um torneio começava. Todos os competidores vestidos de ocasião, estavam. E todas as crianças, platéia eram. Não torciam por um, torciam por todos. Olhei os doutores, os médicos eram super-heróis os tais competidores! Vestidos em roupas brilhantes, de super-heróis, estavam. E eu sei que eram os médicos doutores. E as crianças sorriam.

E os junguianos agora sabem quem sou por meus sonhos.

Os heróis, todos os somos.

Anúncios