Por Ricardo Menacker

Quando dava a mão espalmada para mostrar a idade, lembro de ter ouvido pela primeira vez a palavra câncer. Um casal amigo de meu pai tinha um cão sheepdog. O Bilu era o fiel guardião duma bomboneira, fortaleza de cristal para qual meus olhares glutonianos tinham imenso apreço. Ao menor movimento, Bilu se postava entre nós até que Gilberto, o amigo de meu pai, lhe desse o aval para o menino esférico, farto em calças largas que era aos cinco. Numa outra visita dominical, Bilu estava prostrado, sequer latiu quando lancei mãos ao encontro do cofre. Foi naquele dia que, ao perguntar para o amigo de meu pai qual porquê de Bilu estar tão quieto, bem, o homem disse que o cão estava doente, tinha câncer. Mais algum tempo e o cão havia desaparecido.

Fui educado sem muitas crendices e com os pés no mundo.

Aos oito morava em outra cidade. Uma vizinha tinha um filho endoidecedor. Certa vez bateu com a cabeça no pára-choques de um carro e minha mãe o levou ao pronto-socorro. A toalha encharcada de sangue no banco traseiro não era uma lembrança que atormentava. Mostrava que travessuras podiam incorrer em coisas trágicas e acidentes. O menino ficou bem, só não iria mais brincar de touradas depois dos pontos na cuca. A mãe do moleque ficou eternamente agradecida pela prontidão de minha mãe ao socorrer o garoto e pelo desapego de não se importar com as manchas de sangue no banco do carro. Benevolência e desapego bem podem ser parte do sobrenome de minha mãe, Dona Rute. Pouco tempo depois, a mãe do menino que era tão farta em carnes quanto eu começou a emagrecer. Foi sumindo até desaparecer. A última imagem que guardo dela é no portão da casa, magra, sem luz, triste. Foi embora. E outra vizinha soltou em suspiro: “Coitada, foi cancer.”.

Então, desde grão, câncer era sinômino de sumidouro pra mim. Não queria mais brincar de esconder. Não quero.

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