Por Ricardo Menacker

Profunda reflexão. Inspiar profundamente. Expirar profundamente. Inspirar profundamente enchendo o pulmão de ar enquanto se conta cada momento feliz de vida. Prender o ar. Prender. Prender a respiração. Contar até quando der. Soltar o ar vagarosamente até quando não se aguenta mais ficar sem respirar. Soltar o ar. Respirar. Começou.

A gente não vive apenas para respirar. E fato é que não se vive sem respirar. Ontem, logo após ver o defunto no caixão, fui buscar ar. Ar fresco num final de tarde chuvoso e frio. O ar descia com uma cascata. E foi lá o defunto encontrar o desconhecido. Achar outro caminho porque o dele aqui expirou com o corpo doente, câncer no fígado. Acabou aqui. Uma baixa. Acabou aqui.

Passamos o dia escolhendo o que comer, o que vestir, alguns o que falar. Falar não demanda pensamento, mas os espertos escolhem o que falar. Num determinado momento da vida, alguns de posse de instruções ou documentos ou verdades decidem que podem decidir por você, ou pelo doente, pelo paciente, e uma escolha foi feita. Um diagnóstico tardio de câncer pode acometer a família desse mal: privar o indivíduo de fazer escolhas. O defunto não teve escolhas, morreu sem saber o que tinha. Não, não foi uma baixa, sequer foi soldado de minha ordem. A falta de escolhas o impediu de saber se queria lutar pela vida, se queria um suco de cajá, ir ao Nepal, visitar Mickey Mouse, tomar sol em Natal, comer salmão, rúcula, alcachofra, caviar, beber suco de manga com leite, chá de boldo. E se fulano quisesse ir ver o mar antes de partir? E se fulano quisesse encontrar o amigo de infância que perdeu contato faz tantos anos? Não importa mais. Acabou.

Penso cá com minha comunidade de botões e todos fazem coro comigo: escolher arroz com feijão não pode ser um direito negado. Acabo aqui.

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