gifwrap.asp.gifHá um mês O LIBERAL divulgou reportagem sobre a crise no Hospital Ofir Loyola (HOL), o único lugar que os pacientes de câncer têm para buscar o socorro. O problema é que o hospital também precisa de socorro, pois não tem dinheiro nem para pagar o pãozinho dos pacientes internados, já que a padaria licitada não recebe há três meses e ameaça suspender o fornecimento. Diversos tipo de medicamentos também estão em falta para quimioterapia, e, entre os casos oncológicos atendidos, faltam remédios para leucemia, câncer de mama e outras patologias. O serviço de radioterapia está parado mais uma vez e o setor de Medicina Nuclear, que está pronto para funcionar, ainda não pode oferecer o serviço por falta dos medicamentos. Além disso, todos os pacientes sofrem igualmente com a demora dos atendimentos de rotina, longas filas de espera para a realização de consultas, de exames e lentidão maior ainda na entrega dos resultados.

O mielograma, exame que avalia a condição do paciente de leucemia, está suspenso. A Fundação Hemopa, apontada pelo hospital como responsável pelo exame, informou que seu equipamento nunca esteve com defeito, mas que é responsável somente pelo mielograma de diagnóstico da leucemia. Os demais, para acompanhamento e controle, são de responsabilidade do Ofir Loyola, onde os pacientes não têm qualquer informação segura sobre quando o procedimento vai voltar ao normal.

A situação é considerada insustentável por Ana Klautau Leite, que há sete anos preside a Associação Voluntariado de Apoio à Oncologia (Avao), e, nesse tempo todo, nunca havia se pronunciado sobre dificuldades no hospital. “Faço isso hoje porque a saúde do Pará foi jogada no lixo. O Ofir Loyola está no limite, pode entrar em colapso a qualquer momento, como já aconteceu com a Santa Casa, e a Avao deve isso aos pacientes que precisam do hospital e também são atendidos por nossa entidade“, desabafou Ana Klautau Leite, voluntária há dez anos, antes mesmo de presidir a entidade, que completou dez anos de atuação no dia 10 de março deste ano. Nesta entrevista, concedida à repórter Cléo Soares, Ana Klautau Leite conta como é viver de perto a dor dos pacientes.

Como presidente de uma entidade que há dez anos ajuda os pacientes de câncer, como a senhora vê hoje a situação do Hospital Ofir Loyola?

É muito difícil, e nós estamos sofrendo junto com os pacientes, que não têm remédios. Muitos estão com dificuldades para fazer quimioterapia e braquiterapia também por falta dos medicamentos. Os médicos estão cada dia mais desestimulados, sem condições mínimas de trabalho. A situação do hospital é caótica, e a informação que temos aqui é de que o governo estadual há mais de dois meses não faz o repasse dos recursos para o custeio do hospital. Nosso pedido ao governo, enquanto entidade, é que corrija essa situação o mais rápido possível. Nós estamos acompanhando de perto o trabalho do diretor, um médico que há muitos anos é servidor dedicado do hospital, mas reconhecemos que ele está amarrado, sem recursos. Como um hospital que não consegue pagar nem a padaria que fornece o pão de seus pacientes vai conseguir comprar remédios de oncologia, de altíssimo custo?

Quais são as queixas que a Avao mais ouve dos pacientes?

As queixas em geral terminam em demandas para a Avao, que faz tudo o que pode, com a ajuda de Deus, que é o primeiro e maior voluntário da Avao. Então, algumas demandas nós podemos suprir. Temos fornecido cadeiras de rodas para os pacientes que estão debilitados e precisam se locomover dentro do hospital para os atendimentos, muletas e colchões para o repouso, mas os medicamentos, em geral, não estão ao alcance financeiro de nossa entidade, e o prejuízo aos pacientes é imenso. Veja, por exemplo, um medicamento de câncer que o paciente precise tomar durante dez dias. Ele tem que ser tomado nesse prazo, não adiante tomar cinco e parar, e daqui a um mês tomar mais cinco dias.

Quais são os outros serviços que a Avao presta ao hospital?

A nossa entidade atende todo mês, em média, 3.721 pessoas, tomando café e almoçando. Desse total, 1.270 são acompanhantes de pacientes, pessoas que não têm onde ficar para acompanhar o tratamento de seu ente familiar. Dentro do hospital nós servimos o café para os pacientes da radioterapaia, no meio da manhã, já que a maior parte chega em jejum. Na sede da Avao nós também servimos café até às 10h30 e almoço até às 15 horas. Dentro do Ofir Loyola nós também entregamos, para cada paciente internado, um kit de higiene pessoal, que pode conter inclusive fraldas infantis ou geriátricas, se for necessidade do paciente, mesmo não sendo um doente de câncer, já que o Ofir Loyola, apesar de ser referência em câncer, atende também outras patologias, e nós ajudamos a todos os que estão internados.

Com todo esse tempo de voluntariado, a senhora já viu outras crises no hospital?

Eu me lembro que o hospital passou por problemas há uns 18 anos, quando ainda era chamado dos servidores. Mas, nos últimos dez anos, em que eu tenho acompanhado de perto com o trabalho voluntário, as coisas nunca tinham chegado a esse ponto. Eu nunca tinha visto o Ofir Loyola tão à míngua. Naquele ambiente é difícil até mesmo manter o ânimo de médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares, que precisam estar num lugar onde possam fazer bem seu trabalho de salvar vidas. Os profissionais estão trabalhando lá pela misericórdia de Deus.

O que a senhora acha que pode se feito para que o Ofir Loyola volte a dar um atendimento digno aos pacientes?

Planejamento e mais investimentos do governo, que jogou a saúde do Pará no lixo. Tudo o que estava em andamento parou sem explicações. O hospital infantil do câncer é um exemplo. Ele foi uma grande luta da Avao, por isso nós nos sentimos mãe dessa criança. Ele deveria ter sido inaugurado no final de 2007, mas a obra parou e agora tiraram até a placa com uma possível data de inauguração. Não há mais nada lá, só um esqueleto esperando para ser concluído. Até um leitor de O LIBERAL percebeu isso e mandou uma carta para o jornal falando da obra parada do hospital na semana passada. Se esse hospital infantil sair, além de melhorar o atendimento dos pequenos pacientes, que vão para um lugar mais apropriado para eles, vai desafogar o Ofir Loyola e liberar mais leitos para serem cadastrados para os pacientes adultos, mas é preciso ter boa vontade política de nossos governantes para fazer tudo isso funcionar com urgência.

Na sua avaliação, a estrutura de saúde do Pará está ruim?

A nossa infra-estrutura em si não é tão ruim, mas sempre pode melhorar. O que é ruim mesmo é o funcionamento dela, que está todo atravancado. Você quer ver um exemplo? Uma pessoa, quando recebe um diagnóstico de câncer, em muitos casos precisa operar. Depois de operada, ela precisa ser reavaliada para dar início aos tratamentos adequados a cada caso, o mais rápido possível, para que o câncer não continue a sua caminhada destrutiva. Agora me explica: como uma pessoa que opera do câncer em abril tem a sua avaliação marcada para julho, para, só depois disso, ter agendado o seu tratamento? Até lá, o câncer já fez e aconteceu. Nosso entendimento é que o câncer só vence porque os recursos para combatê-lo não chegam com a mesma velocidade que ele avança – e essa é a nossa maior preocupação.

A senhora conhece casos de pacientes enfrentando o avanço do câncer pela demora nos procedimentos?

Todos conhecemos aqui na Avao, e vários casos. É quimioterapia que atrasa ou é interrompida porque está faltando o medicamento. São exames que demoram tanto para serem entregues que, quando sai o resultado, ele não é real, porque o paciente já está muito mais debilitado do que estava quando fez o exame. O governo precisa dar celeridade, e precisa comprar remédios, mesmo que eles não sejam do padrão do hospital, que é uma alegação comum lá para deixar paciente sem o remédio que ele precisa. Nós conhecemos o funcionamento do tratamento de câncer no interior do Paraná, e naquele Estado o medicamento de câncer vai até o paciente.

A senhora tem esperança que essa situação mude no Pará?

Tenho sim, porque, como eu já disse, Deus é o maior voluntário trabalhando por esses pacientes. Mas, da parte dos nossos gestores, acho que a situação pode melhorar quando as pessoas deixarem de ser números e passarem a ser gente com rosto e nome. Porque lá no Ofir Loyola é assim, o paciente recebe um número, e, a partir dali, poucos querem saber o que se passa na vida daquele número. Aqui na Avao nossos pacientes não têm número. Eles são a dona Maria, seu João e seu José.

Fonte: Artigo de Cléo Soares para O Liberal. Agosto, 28, 2009

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