Aparelho conhecido como bomba de cobalto chegou a atender 40 pessoas por dia em um hospital de Santos que não tinha licença de funcionamento.

Durante 34 anos, um equipamento de radioterapia foi usado no tratamento de pacientes com câncer. Ele chegou a atender 40 pessoas por dia na Beneficência Portuguesa de Santos – um dos maiores hospitais do litoral paulista.

O que foi descoberto sobre o funcionamento dessa máquina nos últimos três anos surpreendeu o Ministério Público.

Brincaram com a vida de vitimas, brincaram com a saúde publica”, afirma o promotor de Justiça Cássio Conserino.

Esse equipamento é conhecido como bomba de cobalto, por conter uma fonte desse material radioativo: as chamadas pastilhas de cobalto. Um feixe de radiação é usado no combate ao câncer.

Documentos mostram que, em 2006, a CNEN – Comissão Nacional de Energia Nuclear, alertou o Hospital de Santos: a pastilha de cobalto estava com atividade muito baixa e precisaria ser trocada.

Dois anos depois, a comissão fez nova vistoria e constatou que a pastilha ainda era a mesma.

A taxa de radiação vai ficando mais fraca. Então, aconselha-se que a cada cinco ou sete anos, as fontes de cobalto sejam substituídas”, afirma o professor de física médica do Instituto Nacional do Câncer Pedro Paulo Pereira.

No ano passado, a Secretaria estadual de Saúde constatou: a bomba de cobalto não tinha licença de funcionamento e apresentava alto risco à saúde publica. O motivo era que a pastilha vencida continuava sendo usada na radioterapia.

Quando não substituídas, isso vai comprometer a qualidade do tratamento porque o tempo de tratamento vai ser muito longo”, afirma o professor de física médica do Instituto Nacional do Câncer Pedro Paulo Pereira.

Segundo médicos ouvidos pelo Ministério Público, não é possível dizer se o tratamento realizado nos últimos três anos foi confiável ou não.

Aquilo que se podia fazer em 30 segundos, tava levando 5, 6, 7 minutos”, diz o presidente da Beneficência Portuguesa, Ademir Pestana.

A bomba de cobalto usada no tratamento de câncer no hospital foi desativada em março deste ano. E hoje, o aparelho está assim todo enferrujado e já tem um destino: o ferro-velho. As pastilhas radioativas foram retiradas e armazenadas em local seguro.

A Beneficência Portuguesa de Santos é um hospital particular, que também atende pelo SUS, o Sistema Único de Saúde.

A direção diz que a bomba de cobalto pertence ao hospital, mas era operada por médicos de uma clinica contratada, que funcionava dentro da Beneficência.

Falhas existiram. Porque não fomos informados?” questiona o presidente da Beneficência Portuguesa, Ademir Pestana.

Ao responder se ele, como presidente, não deveria fiscalizar também, Ademir Pestana responde: “Nós fiscalizamos aquilo que chega. Imediatamente a Beneficência atuou, fechou o serviço e encaminhou para a Comissão de Ética Médica para que se apure e puna, se é que tem que punir, se existe realmente irregularidade”.

Um médico da empresa responsável pela radioterapia diz que a bomba de cobalto tinha condições de uso.

Não havia alto risco de saúde pública. Nós preferimos, aos invés de interromper o tratamento, diminuir o nosso ritmo de atendimento. Os pacientes foram tratados e eu posso lhe garantir que a maioria está agradecida com o nosso serviço”, conta o médico responsável pelo setor de radiologia, Hilário Cagnacci.

Segundo a promotoria, os envolvidos estão sendo investigados por estelionato e crimes contra a saúde pública.

O próximo passo do Ministério Público é levantar o número de vítimas que foram submetidas a tratamento no período de 2006 a 2009 e eventuais “óbitos”, afirma o promotor de Justiça Cassio Conserino.

Hoje, só a Santa Casa faz radioterapia na região de Santos. Alguns pacientes só conseguem horário de madrugada.

Dona Marilda nos recebe em casa. Ela se recupera de um câncer de mama.

As pessoas perguntam: você esta bem, Marilda? Eu estou ótima, só estou com sono, muito sono”, conta Marilda Burato.

A radioterapia está marcada para às 2h45. Ela resolve arriscar. Chega à meia noite e sai do hospital uma hora depois.

Conseguiu (ser atendida mais cedo). Hoje estava mais calmo. Hoje eu vou dormir mais cedo, se Deus quiser”, diz Dona Marilda.

Mais de 230 mil pessoas teriam que passar por sessões de radioterapia este ano em todo o país. Teriam, porque a conta não fecha. Segundo a Sociedade Brasileira de Radioterapia, não há equipamentos suficientes para atender a todos os pacientes com câncer.

A estimativa é que, por ano, 60 mil brasileiros fiquem sem esse tipo de tratamento.

A situação no país hoje, ela é caótica. Existem alguns estados do Brasil que têm pouquíssimos serviços. Por exemplo, Pernambuco é um deles. Pará é outro serviço onde o caos é muito grande e existem alguns onde nem existe serviço de radioterapia”, conta o presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia, Carlos Mendonça de Araújo.

Esse é o caso de Roraima e do Amapá. Em Macapá, uma professora, que operou um câncer de mama, já sabe que o tratamento vai ser a 2,4 mil quilometros dali, em Brasília.

Tenho que fazer radioterapia e está sendo tão difícil, muito difícil”, conta a professora Dilean Ferreira Maciel.

Moradora de Boa Vista, uma paciente precisou fazer 34 sessões de radioterapia em Manaus. Foram 90 dias longe de casa.

Eu conheço pessoas que não foram fazer o tratamento por ser longe da familia, entao desistiram da radioterapia. Isso atrapalha no tratamento”, conta a dona de casa Andeise Vasconcelos.

Para atender essa demanda de forma adequada, Nós precisaríamos pelo menos de mais cem equipamentos e o custo desses equipamentos é muito alto”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia, Carlos Mendonça de Araújo.

Em Santos, onde o equipamento funcionava com prazo de validade vencido, uma nova máquina foi comprada e o atendimento deve ser retomado no mês que vem.

Como a gente costuma dizer, o câncer não espera. Se você perder aquele tempo para fazer o tratamento, a doença avança e com isso o paciente perde essa oportunidade, a chance de tratamento”, explica o médico Benjamim Barbosa.

Matéria completa no Fantástico, da Rede Globo. Outubro, 4, 2008.

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