Clifton Leaf escreve reportagem intitulada “Why we’re losing the war on cancer? — and how to win it” [Por que estamos perdendo a guerra contra o câncer? – e como vencê-la] para a revista Fortune, em 22 de março. “Por que nós fizemos tão pouco progresso na guerra contra o câncer?” É essa a pergunta que faz o jornalista — ele próprio um sobrevivente da doença —, indo na contramão da mídia. Segundo ele, as matérias que celebram os medicamentos revolucionários contra o câncer, como Gleevec, Herceptin e o recém-aprovado Avastin, dão a idéia de que a cura está mais perto do que nunca — mas não está. “Otimismo é essencial“, diz o texto, “mas a porcentagem de americanos que morrem de câncer é a mesma que em 1970 e 1950“. Enquanto isso, os óbitos provocados por doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais (AVC) caíram, respectivamente, 59% e 69% desde a metade do século passado. O repórter fornece outros dados para sustentar sua tese de que os Estados Unidos estão muito longe de vencer o câncer — apesar dos avanços conseguidos desde o início da cruzada, em 1971, com o National Cancer Act. Este ano, a doença deverá tirar a vida de mais de 563 mil americanos. Em 14 meses, mais pessoas terão morrido de câncer nos Estados Unidos do que em do que todas as guerras das quais o País participou juntas. Nas últimas três décadas, o número de mortes por câncer a cada ano aumentou 73%, uma vez e meia a mais que o crescimento da população no mesmo período. De acordo com as previsões do National Cancer Institute (Instituto Nacional do Câncer), NCI, dentro dos próximos dez anos o câncer provavelmente substituirá as doenças do coração como a principal causa de morte entre os americanos. Isso já aconteceu quando se leva em consideração quem está abaixo dos 75 anos.

Embora os pesquisadores digam que mais pessoas estão sobrevivendo por mais tempo, Leaf lembra que os ganhos são medidos em meses de vida, não em anos. Em 1971, metade dos pacientes sobrevivia por cinco anos ou mais após o diagnóstico. Hoje, “33 anos e aproximadamente US$ 200 bilhões depois“, a taxa é de 63%. A reportagem diz que muito pouco desse modesto aumento de 13 pontos porcentuais é resultado da ação dos novos compostos anticâncer. Ao contrário, escreve o jornalista, simples mudanças de hábitos, como parar de fumar, ajudaram a reduzir a incidência de cânceres fatais de pulmão. Mais importante ainda é a identificação precoce dos tumores, auxiliada por mamografias, auto-exames das mamas e dosagens de PSA. Segundo dados da bioestatística Ruth Etzioni, do Centro de Pesquisa em Câncer Fred Hutchinson, na cidade de Seattle, as taxas de sobrevivência entre pacientes com um dos quatro tipos de câncer mais letais — pulmão, cólon e reto, mama, e próstata — mal se moveram desde a década de 1970. “O câncer é um desafio como nenhum outro“, diz a reportagem. O motivo é sua misteriosa habilidade de mudar de identidade, pois as células cancerosas são geneticamente instáveis. Quando elas se dividem, podem transmitir uma cópia alterada do código do DNA — e mesmo a mais insignificante das mudanças é capaz de provocar grandes efeitos no comportamento das células. Segundo Isaiah Fidler, professor e chefe do Departamento de Biologia do Câncer do M. D. Anderson Cancer Center, em Houston, a heterogeneidade dos tumores é o maior obstáculo para um tratamento simples.

A reportagem afirma que hoje o esforço contra o câncer é absolutamente fragmentado — tanto que é praticamente impossível definir de onde vem o dinheiro que paga as pesquisas. Mas Leaf enumera as principais fontes. A verba oficial é o orçamento do NCI; para este ano o Congresso liberou US$ 4,74 bilhões, 3,3% a mais que em 2003. Outras quatro agências federais somam US$ 1,9 bilhão em financiamentos. Até o Pentágono participa, oferecendo US$ 249 milhões para custear estudos envolvendo os cânceres de mama, próstata e ovário. As cinco principais instituições de caridade americanas, junto com nove centros de pesquisa em câncer, arrecadam US$ 1,8 bilhão em doações, enquanto as industrias farmacêuticas investem US$ 6 bilhões na pesquisa e desenvolvimento de medicamentos contra a doença. Ao todo, são US$ 14,4 bilhões só em 2004. Desde 1971, corrigida a inflação, os americanos gastaram perto de US$ 200 bilhões entre impostos, doações e pesquisas particulares. “Sem dúvida o dinheiro nos trouxe uma enorme quantidade de conhecimento“. Leaf afirma que os nichos de pesquisa estão ficando tão estreitos que os cientistas interessados em uma abordagem mais ampla, da doença ou do organismo como um todo, geralmente não conseguem financiamento — quase todo o dinheiro que sai do NCI, por exemplo, vai para o estudo de mecanismos moleculares ou genéticos muito específicos dentro das células. Conforme explica Jean-Pierre Issa, que pesquisa leucemia no M. D. Anderson, quando alguém faz uma alteração sutil em um gene de um rato e isso provoca drásticos efeitos de câncer no animal, o estudo sai nas melhores publicações especializadas. O autor ganha reputação e passa a receber doações. Segundo a base de dados online do NCI, a comunidade científica já publicou mais de 150 mil estudos sobre experimentos com camundongos. “Adivinhe quantos deles levaram a tratamentos para o câncer?“, questiona o jornalista. A resposta é “muito, muito poucos“. “Na verdade, se você quer entender onde a guerra contra o câncer deu errado, o camundongo é um bom lugar para se começar“, acrescenta Leaf. Isso porque, apesar das semelhanças genéticas entre homens e camundongos, as duas espécies possuem diferenças fundamentais de fisiologia, constituição dos tecidos, taxa de metabolismo, funções do sistema imunológico e sinalizações moleculares. É o que diz Robert Weinberg, professor de biologia no Massachusetts Institute of Technology (MIT). Portanto, conclui ele, os tumores que crescem em cada um são completamente distintos. O texto afirma que a indústria de medicamentos reconhece claramente o problema, mas ainda não o solucionou. Pior que isso, escreve o jornalista, é a possibilidade de que drogas que funcionariam em humanos tenham passado batidas pelos cientistas. Para Weinberg, há duas razões para a falta de atitude: não existe outro modelo para substituir o camundongo e o FDA criou uma inércia ao continuar reconhecendo esses modelos como padrões para se prever a utilidades dos medicamentos.

Segundo a reportagem, o que mata as pessoas, em 90% das vezes, é o processo de metástase — e não os tumores localizados. Apesar disso, das quase 8,9 mil propostas de financiamento aceitas pelo NCI no ano passado, 92% sequer mencionavam a palavra. De acordo com Isaiah Fidler, do M. D. Anderson, a metástase não recebe muita atenção simplesmente porque é um assunto difícil. Por outro lado, escreve Leaf, esse fenômeno que abrange todo o organismo e que pode envolver dezenas de processos é uma grande idéia. “É exatamente esse tipo de pesquisa que precisamos“, diz o repórter. Entretanto, as companhias farmacêuticas não se concentram em resolver o problema da matástase (“a coisa que mata pessoas“); ao contrário, focam-se no desenvolvimento de drogas que reduzem tumores (“a coisa que não mata“). A reportagem diz que o FDA é invariavelmente culpado de empatar a guerra contra o câncer, mas afirma que a falha é menos da autoridade que dos atores, pois os medicamentos que reduzem tumores simplesmente não funcionam muito melhor que os tratamentos convencionais. Isso foi comprovado por um estudo publicado no ano passado no British Medical Journal. Dois farmacologistas italianos compararam os resultados dos testes de 12 novos medicamentos contra o câncer, aprovados para o mercado europeu entre 1995 e 2000, com os tratamentos padrões para as respectivas doenças. Nenhuma vantagem substancial foi encontrada em relação aos novos agentes, embora eles custem muito mais caro que as drogas antigas. “Em um caso, o preço era 350 vezes mais alto“, salienta o texto.

A reportagem diz que há dois problemas com os testes clínicos — a única maneira pela qual uma pesquisa pode transformar-se em um medicamento aprovado. Primeiro, eles são caros e longos demais. Por isso, as companhias farmacêuticas, que precisam ver o retorno de seus investimentos, procuram testar compostos que provavelmente serão aprovados pelo FDA e se concentram na melhoria de classes de drogas já existentes. Segundo o texto, o tempo e o dinheiro gastos para se desenvolver um novo composto são muito elevados: de 12 a 14 anos e cerca de US$ 802 milhões. O segundo problema é ainda maior: os testes clínicos estão focados no objetivo errado. A verdadeira razão de ser desses testes, diz Leaf, é checar uma hipótese, ou seja, verificar se o tratamento X é melhor que o Y. No entanto, freqüentemente as informações geradas por esses longos e tortuosos processos não importam muito. O Erbitux, por exemplo — um medicamento usado para tratar câncer de cólon e reto —, reduziu o tamanho dos tumores, mas não demonstrou de maneira alguma ser capaz de prolongar a vida dos pacientes. Assim mesmo foi aprovado em fevereiro para ser usado depois que todos os outros tratamentos possíveis falharem. A dose semanal custa US$ 2,4 mil. De acordo com a reportagem, nem o Gleevec, que provou salvar vidas de pacientes com um tipo pouco comum de leucemia, conhecido como CLM, é o que parece, pois o CLM não é um câncer complicado. Além disso, as células malignas desenvolvem resistência à atuação do composto. Devido à multiplicidade de mudanças nas células cancerosas, Leaf vê o ataque precoce à doença — e por diversas frentes de batalha — como a única chance de sucesso.

Leaf aponta a definição oferecida pelos livros: ‘o câncer começa quando as células de um tumor em expansão atravessam a fina camada protéica que as separam de outro tecido‘, como uma das causas do que ele caracteriza como “o primeiro fracasso de nossa luta contra o câncer“. De acordo com uma das fontes do jornalista — Michael Sporn, da Dartmouth Medical School, é necessário entender o câncer como um processo, que ele designou carcinogenese. Câncer, para Sporn, ‘é uma doença de muitos estágios, que atravessa muitas transformações celulares e que às vezes apresenta longos períodos de latência na sua progressão‘. Essa mudança de concepção, segundo o jornalista, permitiria que a intervenção médica começasse mais cedo. Hoje, pessoas diagnosticadas com displasias, hiperplasias são consideradas saudáveis, e não são tratadas. “Não são sadias pessoas que estão no caminho para o câncer“, afirma o repórter da Fortune, ecoando sua fonte. Trata-se, então, de expandir e aperfeiçoar a prevenção. Como exemplo da eficiência da multiplicação das estratégias preventivas, o jornalista apresenta os testes chamados Papanicolau: nos paises em que é amplamente aplicado, a incidência e a morte por câncer do colo do útero caiu em 78% e 79%, respectivamente, desde a década de 1950. Ele observa que poucos pesquisadores trabalham para identificar sinais precoces de cânceres; e que aqueles marcadores já identificados são ainda imprecisos. Antecipa o argumento de que tratar pessoas com esses sinais — seja removendo lesões pré-cancerosas, ou tratando-as com as drogas já disponíveis — aumentará o custo dos sistemas de saúde e poderá, também, expandir o numero de cirurgias “potencialmente perigosas“, para remover lesões que, afinal, não fariam mal a seus portadores. “Mas certamente os custos de não agir são muito maiores“, pontifica o jornalista. Segundo ele, Elias Zerohuni, diretor do NIH, e Andy Eschenbach, do National Cancer Institute, compartilham seu ponto de vista. O texto cita o diretor do NCI, que quer levar o Instituto na ‘missão de evitar, em primeiro lugar, que o processo ocorra; ou detectar a ocorrência de câncer cedo o bastante para eliminá-lo com menor morbidade‘.

Mas, até o momento, observa, o NCI não passou das palavras à ação. “Para que a nação finalmente vire o jogo nesta guerra brutal“, escreve, “a comunidade do câncer deve encetar uma agressão coordenada à doença“. Para tanto, sugere o jornalista, o NCI poderia começar mudando a forma pela qual financia a pesquisa. Ao invés dos grants individuais, que privilegiam linhas de pesquisa reducionistas, o NCI deveria financiar projetos cooperativos, que olhassem a doença em seus aspectos mais gerais. Hoje, os projetos individuais levam 25% do orçamento da agência; e em relação a projetos cooperativos, o dinheiro gasto com eles é 12 vezes maior. O NCI também deveria comprometer-se em localizar marcadores de câncer, e em criar e aperfeiçoar a detecção precoce através de exames de imagem. Se os americanos parassem de fumar, 30% das mortes por câncer não aconteceriam. O preço dessa estratégia? Bilhões de dólares. Mas, observa o paladino, a nação gasta US$ 64 bilhões anuais com o tratamento do câncer. Há também uma tarefa para o legislativo: concentrar toda a guerra contra o câncer em apenas uma agência de fomento — o NCI — e não em cinco, como ocorre hoje. Ao Congresso, junto com os pesquisadores e o FDA, cabe também modificar o processo de aprovação de drogas, alterando a rotina dos testes clínicos para propiciar mais rapidez na informação sobre o que funciona e o que não funciona. Mais: as restrições legais e de vigilância relacionadas ao uso de drogas combinadas devem ser levantadas. Os testes clínicos para combinações de drogas devem ser financiados pelo próprio NCI; e o processo de autorização para os coquetéis deve ser agilizado pelo FDA. Finalmente, o engajamento de pessoas com cânceres em estágios mais precoces deve ser permitido, para que a avaliação das drogas se torne mais realista.

Fonte: Inovação UNICAMP, Boletim dedicado à Inovação Tecnológica. Maio, 20, 2004.

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