Toda manhã eu tomo um punhado de pílulas: Wellbutrin (450mg) e Zoloft (200mg) para cuidar dos caprichosos oceanos de depressão pós-câncer, Provigil (200mg) para manter a exaustão sob controle, e uma aspirina infantil mastigável (81mg) como uma doce e modesta ressalva contra um ataque cardíaco.

Quando as pílulas se esparramam pelo balcão da cozinha, os fantasmas começam a se reunir. Eles são as sombras dos homens enrugados e amargos que ajudaram a me moldar enquanto criança – o tataravô Ora e o vovô Bub, o tio Lloyd e o tio-avô Billy, para citar alguns –, e eles estão com uma expressão fechada. Um homem de verdade, veja você, não deve tomar pílulas para suavizar o que o atormenta. Mesmo aspirinas eram suspeitas enquanto eu crescia, na New Hampshire rural.

Se você se sentisse sozinho e triste, ou se seus músculos e juntas doessem após uma semana de trabalho pesado, cerveja e uísque eram os elixires de escolha. Pílulas? Não, obrigado. Estas eram destinadas a pessoas fracas e pomposas – como o amigo de verão vindo de Massachusetts –, que não conseguiriam cavar um porão com as mãos, martelar um poste com uma marreta ou puxar uma braçadeira de telhas para cima do telhado de alguma velha casa.

Aqueles homens eram do tipo que acreditavam que todos nós éramos retratos de tristeza – alguns de nós apenas não sabiam disso, ainda. Eles ridicularizavam todos os analgésicos, exceto pelo uísque… e pela violência física.

Eles entravam em lutas de punhos pelo puro inferno e pela dor, o ferroar das articulações lembrando-os de que ainda estavam vivos. Alguns batiam em suas esposas e filhos da forma com que um cachorro tenta roer a dor em sua pata. E outros dirigiam mais rápido que a própria razão, perseguindo sinuosas estradas em seus Mercs e Chevys, onde as árvores de carvalho não podiam sair do caminho.

Meu irmão Mike, que não bate em sua mulher e filhos, mas que correu em carros de corrida nas pequenas e péssimas pistas de New Hampshire quando era mais jovem, costumava dizer: “Se vou atingir o muro, que seja forte”.

Um quinto de Wild Turkey ou um quarto de Pabst Blue Ribbon eram perfeitos para a automedicação. Era com isso que seus pais e avôs haviam se anestesiado, então era bom o suficiente também para eles – e, por implicação, deveria ter sido bom o bastante para mim.

Eles não confiavam em pílulas, não queriam sua dor mediada. Eles agiam como se houvesse uma vantagem evolucionária para sofrer em silêncio. Eles acreditavam que esta vida se destinava à dor; eu acho que eles temiam que, caso a dor fosse embora, eles deixariam de existir.

Quando nós, as quatro crianças, nos machucávamos, arranhando os joelhos ou quebrando uma perna, tínhamos a certeza de que pelo menos um de nossos sérios parentes diria: “Ah, vocês vão sobreviver”.

Levei um bom tempo para desaprender essas teimosas lições. Quando tive meu cólon cirurgicamente removido, em 1984, na insolente vulnerabilidade da juventude, acabei recusando os analgésicos o mais rápido que pude – mesmo que isso significasse longas noites de sudorese, lençóis agarrados e dentes rangendo.

Aparentemente, eu não era mais esperto que o namorado alcoólatra da vovó Jennings, Frank Nay, que não ia ao hospital nem quando descobriu ter câncer de pulmão – preferindo se destruir num beliche de ferro em casa, cuidando de sua dor como uma dose de Old Crow.

Mas na ocasião em que retirei minha próstata cancerosa, há dois anos, me afastei de vez de minhas raízes de New Hampshire. Eu sabia que as gotas de morfina eram minhas amigas, e que seu colega Percocet também era do bem.

Assim, toda manhã faço um leve aceno a esses velhos fantasmas, ergo meu copo de suco de laranja a eles, e engulo minhas pílulas com gratidão.

Fonte: por Dana Jennings para The New York Times, traduzido para UOL Ciência e Saúde. Junho, 24, 2010.

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