Foi uma medida desesperada para uma doença desesperada. Há 14 meses, Dennis Sugrue deixou os médicos colocarem um fino tubo através de suas veias, chegando até a cabeça, para que pudessem aplicar a droga Avastin diretamente nas partes do cérebro onde um tumor tinha sido removido. Foi um experimento, elaborado em grande parte para descobrir se o procedimento era seguro e para medir quanto de Avastin o cérebro poderia tolerar. Mas Sugrue, na época com 50 anos, esperava que o experimento também o libertasse do câncer.

Ele tinha glioblastoma, um tumor cerebral que repele qualquer terapia. A mesma doença matou o senador Edward M. Kennedy no ano passado. O câncer de Sugrue foi diagnosticado em abril de 2009 e bombardeado com as armas usuais: cirurgia, radiação e quimioterapia. Em meses, o tumor estava crescendo novamente. Foi quando ele se candidatou ao estudo com o Avastin.

Cerca de 10 mil americanos desenvolvem glioblastoma todos os anos. Quase todos eles descobrem que os tratamentos padrão parecem funcionar – por um tempo. E o relógio começa a contar. Com tratamento, a média de sobrevivência é de cerca de 15 meses. Apenas 25% dos pacientes conseguem viver por mais 2 anos.

A doença é foco de diversas pesquisas e provavelmente será assim por muitos anos. Centenas de estudos estão sendo conduzidos sobre glioblastoma e outros tipos de câncer cerebral. Entre outras coisas, eles envolvem vacinas, combinações de drogas e técnicas especiais de aplicação de drogas. O progresso é medido em pequenos passos – alguns meses a mais de vida, mais pacientes conseguindo sobreviver por 2 anos. No papel os ganhos podem parecer mínimos, mas para os pacientes o tempo a mais de vida pode ser traduzido numa festa de formatura ou de casamento, que antes seria perdida.

Há dois obstáculos enormes para tratar glioblastomas. Primeiro, nenhuma droga é altamente eficaz. Segundo, mesmo que existisse uma droga assim, aplicá-la no tumor seria difícil. Muitas drogas não podem ser passadas pela barreira sangue-cérebro, um sistema de células bastante unidas que revestem vasos capilares no cérebro. A barreira torna todos os tumores cerebrais difíceis de tratar.

O estudo do qual Sugrue participou, para pessoas com gliobastomas recorrentes, está sendo conduzido pelo Dr. John Boockvar, cirurgião cerebral do NewYork-Presbyterian/Weill Cornell. Os médicos primeiro injetam uma substância chamada manitol, que temporariamente abre a barreira, e então inundam a zona do tumor com Avastin. O Avastin bloqueia o crescimento de novos vasos sanguíneos, dos quais o tumor precisa. A droga é aprovada para casos de glioblastoma, mas os tumores podem se tornar resistentes a ela.

Normalmente, o Avastin é pingado numa veia. Mas Boockvar e seus colegas queriam tentar atingir o câncer com uma dose muito mais alta ao guiar tubos finíssimos chamados microcatéteres através de vasos sanguíneos até o local do tumor, e então liberar a droga.

Sugrue foi o segundo paciente a ser tratado, com uma pequena dose. Desde então, o estudo mostrou que quantidades maiores – sete vezes a dose recebida por ele – podem ser usadas de forma segura.

Um relatório sobre os primeiros 30 pacientes foi publicado online no mês passado no The Journal of Neurosurgery. Os tumores encolheram em alguns, particularmente aqueles que não tinham recebido Avastin antes. Mas um paciente sofreu derrame devido ao tratamento, o que causou fraqueza em um lado. E ainda não se sabe se a abordagem pode prolongar a sobrevivência.

Comecamos há um ano“, disse Boockvar, acrescentando que os primeiros pacientes estavam bastante doentes e só receberam uma dose de Avastin. “Perdemos cerca de 15, ou metade dos pacientes. Os demais estão vivos, sãos e salvos“.

Sua equipe começou novos experimentos usando manitol e microcatéteres para aplicar outras drogas diretamente no cérebro. No futuro, certas drogas podem ser combinadas com o Avastin.

O Dr. Keith Black, diretor de neurocirurgia do Cedars-Sinai Medical Center, em Los Angeles, e especialista em quebrar a barreira sangue-cérebro, disse que não está claro que o Avastin funciona bem o suficiente para melhorar a sobrevivência, mesmo quando infundido diretamente no cérebro. São necessárias drogas melhores.

Podemos colocar as drogas, mas há uma crença no caso de glioblastoma, por exemplo, de que mesmo que estiquemos o limite das drogas não aumentamos a sobrevivência tanto assim”, disse Black. “É como ter o cavalo de Troia antes de ter os solados para montá-lo“.

Ele afirmou que as vacinas pareciam promissoras para alguns pacientes com glioblastoma. Além disso, pesquisas com animais sugerem que o Viagra ou o Levitra – drogas para disfunção erétil – podem abrir a barreira sangue-cérebro, particularmente ao redor de tumores, e permitir a entrada da quimioterapia. Em teoria, as drogas poderiam ser tomadas em forma de pílulas, ao contrário do manitol. Black contou estar planejando estudar a ideia em pessoas com diversos tipos de tumores cerebrais, incluindo aqueles que se espalharam de outros locais, como mama ou pulmão. O câncer vindo de outros órgãos invade o cérebro de cerca de 100 mil americanos todos os anos.

O estudo do qual Sugrue participou ainda continua. Assim como ele próprio. Ele mora em Stamford, Connecticut, com sua esposa, Donna, e seus filhos adolescentes, Molly e Tim. Molly, que está no último ano da escola, está prestes a se candidatar a uma vaga na faculdade de enfermagem. Sugrue ainda recebe doses intravenosas de Avastin regularmente (ele só teve uma dose aplicada diretamente no cérebro). Não há sinais de recorrência do tumor.

Mas este não tem sido um ano fácil. Uma infecção em sua incisão exigiu muitas operações. Ele perde uma parte da visão periférica e já não dirige mais. Ele precisa de fisioterapia e terapia ocupacional. Embora trabalhe um pouco, ele ainda não foi capaz de voltar em tempo integral ao seu trabalho com fundos hedge. Mas ele nunca perdeu sua inteligência e senso de humor, segundo a esposa. Ela disse: “O que ele passou teria matado um homem mais fraco“.
Se ele tivesse de fazer tudo de novo, será que participaria do estudo?

Com toda a certeza“, disse Sugrue, em entrevista por telefone na semana passada. “Na verdade, vou perguntar ao Dr. Boockvar se há mais testes por aí“.

Fonte: por Denise Grady para The New York Times, e por Gabriela d’Ávila para BOL Notícias. Novembro, 16, 2010.

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