Doença transformou Ruth Pennebaker em uma mulher sarcástica e amarga. Enfermidade, segundo ela, abriria oportunidade para paciente ser livre para resmungar.

Dizem que o câncer muda a gente. Pode ser. Quando descobri que tinha câncer de mama há 12 anos, virei uma comediante. Não do tipo que a gente paga para assistir. Apenas aquele tipo de comediante que vaga pelos corredores de hospital e salas de exame oferecendo opiniões incomuns, observações sabichonas, comentários ultrajantes.

Para minha oncologista – uma mulher baixinha e enérgica, que me informou que meu tumor era “bastante agressivo” –, reclamei sobre o título do panfleto que ela tinha me dado, “A Quimioterapia e Você”. Disse que preferia que o título fosse “A Quimioterapia e Outra Pessoa Que Não Você”.

Também reclamei da pequena propaganda que listava a família e os hobbies da médica. Família, tudo bem. Mas hobbies? Não queria ser tratada por um médico que tivesse tempo para hobbies. Queria que ela passasse todas as horas do seu dia se concentrando em curar o câncer, particularmente aquele tipo diagnosticado no meu próprio relatório patológico cruel.

Para todo mundo, especialmente as pessoas que usavam bata branca e carregavam uma agulha, eu informava que estava escrevendo um livro sobre câncer. Tentava parecer furiosamente litigiosa sempre que falava.

No meio disso tudo – os retornos, os sarcasmos, a tagarelice – eu tinha pouca idéia do que estava fazendo. Eu queria ser alguém, uma personalidade reconhecida, um ser humano memorável, de pedigree, e não somente uma paciente com câncer. Eu já tinha mesmo perdido a pessoa que eu costumava ser, aquela mulher saudável e enérgica de 45 anos de idade. Não podia perder mais.

Outros amigos meus tinham seu estilo próprio de conquistar uma individualidade no mundo do câncer. Um deles, um psiquiatra, questionava qualquer decisão médica. Outra, que não era nem um pouco introvertida, aterrorizava os técnicos de enfermagem. “Você tem a oportunidade de me furar e encontrar uma veia”, ela dizia a eles. “Se você não sabe fazer isso, ache alguém quem saiba”.

Eu também me confortava com o relato de Anatole Broyard sobre seu tratamento contra o câncer, maravilhosamente escrito e às vezes hilário, publicado em 1992 com o título de “Intoxicated by My Illness”, dois anos depois de sua morte por câncer de próstata. Broyard, crítico literário e editor do New York Times, uma vez dispensou um célebre cirurgião porque não gostou do jeito como ele usava o gorro cirúrgico na sala de cirurgia. Parecia, como ele escreveu, “como se sua cabeça estivesse usando uma camisinha”.

A visão de Broyard era essa: “Uma doença crítica é como uma grande permissão, uma autorização ou absolvição. Não tem nenhum problema se um doente terminal for romântico, até louco, se ele quiser. Toda sua vida você pensa que deve segurar sua loucura, mas quando você está doente pode soltá-la, em suas cores mais berrantes”.

Sim! Eu também estava passando por aquilo. As cores berrantes, aquela loucura e liberdade, aquele discernimento total sobre o que era importante e o que não era. Às vezes eu sentia como se tivesse vivido minha vida meio adormecida. Mas hoje … hoje estou bem acordada.

À medida que meus tratamentos geravam um desgaste maior – o cateter no peito, a quimioterapia, os remédios contra enjôo, o fato de ficar careca, a fadiga, a radiação – meu bom humor e senso de clareza começaram a minguar. Uma noite, em uma peça de teatro, observei uma mulher no outro lado da platéia. Ela era atraente, de meia idade, vibrante. Completamente diferente de mim, do que eu me tornei nos últimos tempos. Afundei na minha poltrona, sentindo-me desgastada, vazia e envelhecida.

Na última vez que visitei minha oncologista depois do fim dos meus tratamentos, me senti perdida. A imagem recorrente que freqüentava minha mente era que alguém com uma pinça gigante me pegou, me chacoalhou e me jogou de volta no chão. E agora?
Eu disse a minha oncologista: “Acho que quero lhe perguntar como viver”.

Ela me disse que eu poderia viver da mesma forma que antes – trabalhando, cuidando das crianças, praticando exercícios, viajando, aproveitando a vida. Tudo, de verdade. Eu poderia viver uma vida normal.

Ao sair de seu consultório, percebi o quanto eu tinha perdido a mim mesma nos meses anteriores. Eu precisava me lembrar de quem eu era.

Você pode me dizer quem eu sou? Nunca fiz essa pergunta a minha oncologista. Provavelmente ela ia pensar que eu estava brincando, como sempre.

Fonte: por Ruth Pennebaker, no New York Times, para o Portal G1. Agosto, 15, 2008.

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